|
A Gaita
“As duas mãos em concha acolhem
o pequeno parceiro, dando-lhe, ao mesmo tempo, proteção e
calor humano. E principia, então, o que me soa como um ato de ternura
musical.
A gaita passeia entre os lábios,
num poético vai-e-vem. Beijos metálicos perpassando a linha
do horizonte. A gaita tem a singeleza dos brinquedos remotos.
E, no entanto, infinitos são
os recursos que oferece ao intérprete esse humilde instrumento.
O que tem ele de pueril tem de ousado.
O que tem de despretensioso tem de eclético.
O que tem de simplório na aparência tem de requinte na sonoridade.
A gaita é o milenar passatempo
das almas solitárias: dos marinheiros, dos andarilhos, dos pastores.
A pungência de seu sopro me dá
a doce impressão de que o gaitista é um pastor que passa
a vida tocando rebanhos de nuvens.”
Armando
Nogueira
|